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"Armação Ilimitada", o programa que revolucionou a TV brasileira

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Essa "família" alternativa, que ainda por cima criava uma criança, provavelmente seria vetada nos dias atuais, com os conservadores e religiosos de plantão boicotando novelas e emissoras...

Essa "família" alternativa, que ainda por cima criava uma criança, provavelmente seria vetada nos dias atuais, com os conservadores e religiosos de plantão boicotando novelas e emissoras...

Foto: Reprodução

"Armação Ilimitada" (1985-1988) é até hoje o programa mais moderno da TV brasileira. Para entender por que, precisamos voltar no tempo...
Em 1981/82, o filme "Menino do Rio" foi um estouro nas bilheterias nacionais. Dirigido por Antônio Calmon, mostrava o universo do surf carioca e da nascente "geração saúde"
O ator loiro e surfista na vida real André de Biase vivia Valente, que se envolvia com a patricinha (até no nome!) Patrícia (Cláudia Magno). A trilha sonora trazia os hits do rock e da new wave brasileira, com Lulu Santos, Rádio Táxi, Guilherme Arantes...
O sucesso do filme gerou a continuação "Garota Dourada" (1983/84), também dirigida por Calmon. Biase retomava o personagem, e se envolvia com a misteriosa Bianca Byington
O filme não repetiu o sucesso do primeiro, apesar da trilha com Ritchie, Marina Lima, Léo Jayme...
Mas a semente estava plantada. Com o sucesso no cinema, André de Biase e o colega da TV Globo Kadu Moliterno tiveram a ideia de criar um seriado de TV com dois protagonistas aventureiros, envolvidos em esportes e com cenas de ação, na cola do enlatado americano "Magnum". Nasciam assim Juba (Kadu) e Lula (Biase), sócios na firma Armação Ilimitada
A Globo acatou a ideia, e juntou a dupla com uma equipe de criação formada pelo próprio Antônio Calmon, diretor dos dois filmes com Biase,  além de Nelson Motta, Patrícia Travassos e Euclydes Marinho
Mas faltava um molho à história dos dois amigos aventureiros. Solução: uma mulher, que seria disputada pelos dois. Assim nasceu Zelda Scott, a jornalista feminista e ousada vivida por Andrea Beltrão
Andrea tinha atuado em "Garota Dourada" e acabara de estrear na Globo, na novela "Corpo a Corpo" (1984/85). Para viver Zelda, ela tosou os cabelos, lançando moda com o look radical dos anos 80
O núcleo central estava formado. Mas além do triângulo amoroso, faltavam mais alguns personagens...
Surgiu assim o personagem Bacana, um menor abandonado que é "adotado" por Juba & Lula e passa a viver com essa inusitada família
Para viver Bacana (que quase se chamou "Bagana" - gíria para ponta de cigarro de maconha), foi escalado Jonas Torres, então com 10 anos, que havia acabado de encarnar o filho de Lucélia Santos na novela "Vereda Tropical" (foto, 1984/85)
Outros personagens completavam o time fixo de "Armação": a ninfomaníaca e comilona Ronalda Cristina (Catarina Abdalla), a melhor amiga de Zelda...
O neurótico e transtornado Chefe (Francisco Milani), patrão de Zelda no jornal Correio do Crepúsculo...
E a radialista/DJ Black Boy (Nara Gil, filha de Gilberto Gil), que estava sempre no estúdio comentando as cenas, misturando rap com locução de rádio, numa iniciativa totalmente inusitada na TV
Para dirigir o programa, foi convocado Guel Arraes (de boné amarelo), que até então havia dirigido, ao lado de Jorge Fernando,  novelas das 19h na Globo - novelas um tanto "modernas" e de ritmo ágil, como "Jogo da Vida" (1981/82), "Guerra dos Sexos" (1983/84) e "Vereda Tropical" (1984/85)
E assim, em 17 de maio de 1985, estreava "Armação Ilimitada", dentro do programa "Sexta Nobre" da Globo
O sucesso foi imediato, e o seriado se transformou num hit da Globo, gerando moda e lançando tendências. De cara o programa foi saudado como a coisa mais moderna que a Globo já fizera
Motivos para isso não faltavam: afinal, onde se vira na TV nacional um triângulo amoroso que era obviamente um trio assumido? Juba e Lula dividiam a mesma mulher e pronto, sem crises
Essa relação a três era inspirada no filme "Jules e Jim", clássico de François Truffaut, da Nouvelle Vague, de 1961
Essa "família" alternativa, que ainda por cima criava uma criança, provavelmente seria vetada nos dias atuais, com os conservadores e religiosos de plantão boicotando novelas e emissoras...
Juba, Lula e Bacana moravam num enorme depósito que funcionava como um loft. Zelda morava num apartamento, primeiro com o pai (Paulo José), depois com Ronalda Cristina
Outra inovação do seriado: a utilização dos esportes radicais, que antes mal apareciam na TV. Assim, "Armação" tinha motocross...
Surf, que era a principal motivação de Juba e Lula...
Asa delta / Vôo livre... (em praticamente todas as cenas os atores Biase e Kadu dispensavam o uso de dublês)
E até paraquedismo, entre outros (na imagem, Jonas Torres no chroma key para "pular de pára-quedas" no episódio "Perdidos na Selva")
Mais inovações: a explícita linguagem inspirada nas histórias em quadrinhos, com direito a balõezinhos e tudo
Toda a linguagem da série misturava quadrinhos, desenhos animados, videoclipes, videogames e demais artes visuais pop, com destaque especial para o cinema, inspiração maior da série
O personagem Chefe era um ótimo exemplo: em todas as cenas em que ele surgia, as situações eram levadas ao pé da letra
"Chefe, o senhor é um vampiro!", dizia Zelda em sentido figurado - e pronto, o Chefe virava literalmente um chupador de sangue. Situações surrealistas eram a tônica no escritório do Chefe
Outros efeitos se inspiravam nas animações, como a barba gigante de Bacana no episódio "O Poderoso Sultão"
Outro recurso das animações: os personagens de "Armação" se comunicavam constantemente com o público, falando direto para a câmera
Os exageros, gags visuais e recursos gráficos eram uma marca registrada do seriado, num estilo que daria origem a outros programas, como os humorísticos "TV Pirata" (1988/92) e "Casseta & Planeta Urgente" (1992/2010), além do "Programa Legal" (1991) e outros projetos de Guel Arraes com Regina Casé
Novelas também beberam na fonte da "Armação" - basicamente todas as escritas por Carlos Lombardi para o horário das 19h devem muito ao seriado
Outra marca da "Armação": a cada episódio, astros da constelação pop global faziam participações especiais, como Christiane Torloni no episódio "Contatos Imediatos de 4º Grau"...
Jorge Fernando no episódio "O Caso Júnior Filho" (ele também dirigiu vários episódios da série)...
Patrícia Pillar vivendo a recatada Santinha no episódio "Verão de 87"...
Que também contou com Selma Egrei como uma espécie de sereia trash que enfeitiça Juba
Evandro Mesquita esteve em vários episódios, como "Perdidos na Selva", onde viveu Poliana Jones
Léo Jayme atuou em "Uma Armação nas Estrelas", episódio que satirizava "Star Wars", filmes de ficção e até o "Xou da Xuxa"
Mônica Torres apareceu no episódio "Vida de Tiete", que satirizava o mundo do rock e seus ídolos
E que também tinha como convidados Scarlet Moon, Rosita Thomás Lopes e Miguel Falabella
Falabella vivia Télvis, um popstar esnobe e ridículo, em guerra com sua assessora Vera Cobra (Scarlet Moon)
Além desse episódio, Falabella também atuou em outro da Armação, "O Fantasma do Rock", uma sátira do "Fantasma da Ópera"
O programa teve duas trilhas sonoras lançadas em disco: em 1985 e 1988 (foto)
A direção de arte do programa também ajudou a fixar o estilo da série
Figurinos, cenários e adereços faziam referência a filmes e obras clássicas da cultura pop
Esse liquidificador de cultura pop, com multi-referências, foi a grande herança deixada pelo programa. A série chegou a influenciar até novelas de TV, que se tornaram mais ágeis e menos "paradonas"
"Armação" foi sucesso nos anos de 1985, 86 e 87. Em 88, o programa entrou em decadência. Nessa quarta e última temporada, poucos episódios foram produzidos. A fórmula tinha se desgastado
A equipe já estava envolvida em outros projetos, como o "TV Pirata", comandado por Guel Arraes, e a "Armação" deixou de ser o foco
Em clima de "salve-se quem puder", Jonas Torres migrou para as novelas, onde atuou já adolescente. Depois, sumiu da TV e passou a ter carreira irregular - esteve em "Malhação" no fim dos anos 90, e acaba de atuar na novela "Império"
Andrea Beltrão fez carreira sólida em TV, teatro e cinema. Depois, migrou de vez para as sitcoms de humor: "A Grande Família" e "Tapas e Beijos", ainda no ar
Kadu Moliterno e André de Biase criaram o programa juvenil "Juba & Lula" e lançaram até disco com a dupla cantando. Mas a onda tinha passado e a dupla se desfez. Kadu atuou em dezenas de novelas globais, e Biase atuou com mais frequência nas novelas da Record nos últimos anos
O programa saiu do ar no final de 88. Foi reprisado em diversas ocasiões pela Globo. Suas primeiras três temporadas foram reprisadas na íntegra em 2005, no canal Multishow, e mais recentemente no Canal Viva
Um box com alguns episódios (cerca de 10, do total de 40 realizados) foi lançado em DVD em 2008. "Armação Ilimitada" ganhou, ainda em 1985, o prêmio Ondas de melhor série de TV, em Barcelona - o Ondas é considerado o Oscar da TV europeia
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